Ao planejar uma revisão da literatura, TCC, dissertação, tese ou artigo científico, a qualidade da sua busca em bases de dados é decisiva. Dois conceitos que fazem toda a diferença nessa etapa são “descritores” e “palavras‑chave”. Embora pareçam similares, eles têm funções diferentes e complementares. Neste guia, explico cada um, quando e como usar, e dou exemplos práticos para a área da saúde.

Enfermeira pesquisadora realizando a busca por descritores e palavras-chave no MESH da PUBMED/MEDLINE
Fonte: Imagem gerada pela IA Gemini, 2025.

Conceitos básicos

O que são descritores (termos controlados)

  • São termos padronizados que fazem parte de um vocabulário controlado, criado para uniformizar a indexação dos artigos em uma base.
  • Ex.: MeSH (Medical Subject Headings) no PubMed/Medline; DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) na BVS/LILACS; Emtree no Embase; CINAHL Headings no CINAHL.
  • Cada descritor tem:
    • Definição (scope note),
    • Hierarquia (termos mais amplos/estreitos),
    • Sinônimos/termos de entrada (entry terms),
    • Possíveis qualificadores/subheadings (ex.: therapy, prevention & control).
  • Por que importa: quando um artigo é indexado por humanos (ou por processos semi‑automatizados), ele recebe descritores que representam seu conteúdo principal. Buscar por descritores ajuda a recuperar artigos relevantes mesmo que usem palavras diferentes no título ou resumo.

Exemplos:

  • MeSH: “Pressure Ulcer”, “Diabetes Mellitus, Type 2”, “Intensive Care Units”.
  • DeCS (pt): “Úlcera por Pressão”, “Diabetes Mellitus Tipo 2”, “Unidades de Terapia Intensiva”.

O que são palavras‑chave (termos livres)

  • São palavras ou expressões que você escreve livremente para representar o seu tema, tipicamente presentes em título, resumo e texto dos artigos.
  • Não pertencem a um vocabulário controlado (não são “oficiais” da base), por isso variam conforme idioma, grafia, estilo, gírias técnicas, siglas.
  • Por que importa: capturam variações de linguagem, neologismos e termos emergentes que ainda não viraram descritores.

Exemplos:

  • “lesão por pressão”, “pressure injury”, “escaras”, “bedsores”, “UTI”, “ICU”, “profilaxia”, “reposicionamento”.

Principais diferenças (e como elas afetam sua busca)

  • Padrão vs. livre:
    • Descritores = termos padronizados do vocabulário controlado da base.
    • Palavras‑chave = termos livres no texto dos artigos.
  • Cobertura:
    • Descritores aumentam precisão e permitem “navegar” pela hierarquia temática.
    • Palavras‑chave aumentam abrangência (recall), captando sinônimos, siglas e termos novos.
  • Idioma:
    • Descritores podem ter versões em vários idiomas (ex.: DeCS em pt/es/en), mapeadas para o mesmo conceito.
    • Palavras‑chave exigem variações de idioma e grafia (inglês/português, US/UK).
  • Dependência de indexação:
    • Descritores dependem da indexação do artigo. Artigos muito recentes podem ainda não estar indexados por descritores.
    • Palavras‑chave independem da indexação.

Conclusão prática: usar só descritores pode perder artigos novos; usar só palavras‑chave pode trazer muito “ruído”. A melhor estratégia combina ambos.


Onde encontrar os descritores corretos

Dica: verifique a “scope note” (definição) do descritor para confirmar se corresponde ao seu conceito, veja termos relacionados, mais amplos e mais específicos, e avalie subheadings úteis (ex.: “prevention & control”, “adverse effects”, “therapy”).


Quando usar descritores e quando usar palavras‑chave

  • Sempre use descritores quando:
    • Eles existem para o seu tema,
    • Você precisa de precisão e padronização,
    • Deseja explorar subheadings (ex.: prevenção, epidemiologia).
  • Use palavras‑chave quando:
    • O tema é emergente e ainda não tem descritor,
    • Você quer capturar sinônimos, variações linguísticas, siglas,
    • Precisa trazer estudos muito recentes sem indexação completa.
  • Melhor prática: combinar os dois conjuntos com OR dentro de cada conceito e AND entre conceitos (princípio PICO/PECO/PIO etc.).

Entenda o que são operadores booleanos (AND, OR, AND NOT) no vídeo abaixo.


Passo a passo para construir sua estratégia de busca

  1. Defina a pergunta (ex.: formato PICO ou PECO)
  • P: população/paciente
  • I: intervenção/exposição
  • C: comparação (opcional)
  • O: desfecho
  1. Liste sinônimos e variações por conceito
  • Inclua singular/plural, US/UK, siglas, termos leigos/técnicos.
  1. Mapeie descritores em cada base
  • MeSH/DeCS/Emtree/CINAHL Headings correspondentes.
  1. Combine descritores e palavras‑chave
  • Dentro de cada conceito: (descritores OR sinônimos livres).
  • Entre conceitos: conecte com AND.
  1. Aplique operadores e recursos
  • Booleanos: AND, OR, NOT (use NOT com cautela).
  • Frases exatas: coloque os descritos/palavras-chave “entre aspas”.
  • Truncamento: para identificar variações de um radical, por exemplo – prevention* para prevention, preventive, etc. (o símbolo do truncamento varia por base, podendo ser * ou $).
  • Campos: defina se quer a busca dos descritores/palavras-chave apenas em títulos, títulos e resumos, e etc. [MeSH Terms], [Title/Abstract], mh: (LILACS), ti,ab: (Embase/Scopus), etc.
  1. Ajuste por base de dados
  • PubMed não usa os mesmos campos e operadores que Embase, Scopus, CINAHL, LILACS/BVS.
  • Adapte sintaxe e campos em cada plataforma.
  1. Teste, refine e documente

Exemplo prático em saúde: lesão por pressão em idosos na UTI (prevenção)

Objetivo: encontrar estudos sobre prevenção de lesão/úlcera por pressão em idosos internados em UTI.

  1. Conceitos e sinônimos
  • Condição: “lesão por pressão” | “úlcera por pressão” | “pressure injury” | “pressure ulcer” | “pressure sores” | “bedsores” | “pressure wounds”
  • População: “idosos” | “older adults” | “elderly” | “aged”
  • Contexto: “UTI” | “unidade de terapia intensiva” | “ICU” | “intensive care”
  • Ação: “prevenção” | “profilaxia” | “prevention” | “prophylaxis” | “repositioning” | “skin care” | “mattresses”
  1. Descritores por base
  • MeSH (PubMed): “Pressure Ulcer”; “Aged”; “Intensive Care Units”; subheading “prevention & control”.
  • DeCS (BVS/LILACS): “Úlcera por Pressão”; “Idoso”; “Unidades de Terapia Intensiva”; qualificador “prevenção & controle”.
  • Emtree (Embase): ‘pressure ulcer’, ‘aged’, ‘intensive care unit’, qualifiers/field labels específicos da base.
  1. Exemplo de estratégia (PubMed, ilustrativa)
  • Conceito 1 (condição): (“Pressure Ulcer”[MeSH Terms] OR “pressure ulcer*”[Title/Abstract] OR “pressure injur*”[Title/Abstract] OR bedsore*[Title/Abstract] OR “pressure sore*”[Title/Abstract])
  • Conceito 2 (população): (“Aged”[MeSH] OR elder*[Title/Abstract] OR “older adult*”[Title/Abstract] OR geriatric*[Title/Abstract])
  • Conceito 3 (contexto): (“Intensive Care Units”[MeSH] OR ICU[Title/Abstract] OR “intensive care”[Title/Abstract] OR “critical care”[Title/Abstract])
  • Conceito 4 (ação/prevenção): (“prevention and control”[Subheading] OR prevention[Title/Abstract] OR prophylaxis[Title/Abstract] OR reposition*[Title/Abstract] OR “support surface*”[Title/Abstract])

Combinação: (Conceito 1) AND (Conceito 2) AND (Conceito 3) AND (Conceito 4)

  1. Exemplo (BVS/LILACS, ilustrativa)
  • (“Úlcera por Pressão”) AND (Idoso) AND (“Unidades de Terapia Intensiva”) AND (prevenção OR profilaxia OR reposicion* OR “Prevenção & controle”)

Observações:

  • Ajuste maiúsculas/minúsculas, acentos e operadores conforme a interface;

Boas práticas (que fazem diferença no resultado)

  • Combine descritores + termos livres para cada conceito.
  • Verifique a “scope note” do descritor para evitar mapeamentos errados.
  • Inclua variações linguísticas (pt/en), US/UK (behavior/behaviour).
  • Use aspas para frases (“pressure ulcer”), especialmente em termos compostos.
  • Truncamento com moderação (ex.: prevent* vs. prevention*), evitando “explodir” termos irrelevantes.
  • Revise o mapeamento automático (PubMed ATM): confira em “Details”/“Search History” se a base traduziu seu termo para o descritor correto.
  • Aplique filtros depois de testar a sensibilidade da busca (tipo de estudo, idiomas, anos). Evite filtros muito restritivos logo no início.
  • Documente cada estratégia por base (para reprodutibilidade e métodos).
  • Para revisões sistemáticas, siga PRISMA‑S e, se possível, peça uma revisão PRESS da estratégia.

Erros comuns (e como evitar)

  • Usar só uma palavra‑chave e esquecer sinônimos e variações.
  • Confiar apenas em descritores e perder artigos recém‑publicados.
  • Ignorar o idioma dos artigos e buscar em uma única língua.
  • Não checar se o termo escolhido realmente existe no vocabulário (e qual é o termo preferido).
  • Usar NOT para excluir demais e acabar removendo estudos relevantes.
  • Copiar a mesma sintaxe entre bases diferentes (PubMed ≠ Embase ≠ Scopus ≠ BVS).
  • Não registrar a estratégia final (dificulta a escrita dos métodos e a reprodutibilidade).

Mini‑guia rápido: escolhendo descritores e palavras‑chave

  • Comece pela pergunta PICO/PECO.
  • Para cada elemento central, faça:
    • 2–4 descritores (se existirem na base),
    • 4–8 palavras‑chave (sinônimos, siglas, US/UK, pt/en).
  • Combine:
    • Dentro do conceito: OR,
    • Entre conceitos: AND.
  • Teste, refine, salve a estratégia e descreva nos métodos do seu trabalho.

Perguntas frequentes

  • Descritores e palavras‑chave são a mesma coisa?

    • Não. Descritores são termos padronizados dos vocabulários controlados; palavras‑chave são termos livres do texto dos artigos. Eles se complementam.
  • Preciso traduzir para inglês?

    • Quase sempre sim, especialmente para PubMed, Embase e Scopus. Use DeCS para ver o equivalente em inglês e espanhol a partir do português.
  • Posso usar apenas descritores?

    • Não é recomendado. Você pode perder artigos novos que ainda não foram indexados.
  • Quantas palavras‑chave devo usar?

    • Depende do tema, mas liste um conjunto robusto de sinônimos e variações. Em temas amplos, prefira estruturar por conceitos com 5–10 termos livres cada.
  • Como cito minha estratégia no método?

    • Descreva bases, datas da busca, estratégia completa (com operadores e campos), filtros aplicados e data do último update. PRISMA‑S traz um checklist útil.

Conclusão

  • Descritores aumentam a precisão por meio de termos controlados e hierarquias.
  • Palavras‑chave aumentam a sensibilidade, captando variações de linguagem e novidades.
  • A melhor estratégia combina os dois, corretamente estruturada com operadores (AND/OR), uso de frases, truncamentos prudentes, adaptação por base e boa documentação.

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