Ao planejar uma revisão da literatura, TCC, dissertação, tese ou artigo científico, a qualidade da sua busca em bases de dados é decisiva. Dois conceitos que fazem toda a diferença nessa etapa são “descritores” e “palavras‑chave”. Embora pareçam similares, eles têm funções diferentes e complementares. Neste guia, explico cada um, quando e como usar, e dou exemplos práticos para a área da saúde.

Conceitos básicos
O que são descritores (termos controlados)
- São termos padronizados que fazem parte de um vocabulário controlado, criado para uniformizar a indexação dos artigos em uma base.
- Ex.: MeSH (Medical Subject Headings) no PubMed/Medline; DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) na BVS/LILACS; Emtree no Embase; CINAHL Headings no CINAHL.
- Cada descritor tem:
- Definição (scope note),
- Hierarquia (termos mais amplos/estreitos),
- Sinônimos/termos de entrada (entry terms),
- Possíveis qualificadores/subheadings (ex.: therapy, prevention & control).
- Por que importa: quando um artigo é indexado por humanos (ou por processos semi‑automatizados), ele recebe descritores que representam seu conteúdo principal. Buscar por descritores ajuda a recuperar artigos relevantes mesmo que usem palavras diferentes no título ou resumo.
Exemplos:
- MeSH: “Pressure Ulcer”, “Diabetes Mellitus, Type 2”, “Intensive Care Units”.
- DeCS (pt): “Úlcera por Pressão”, “Diabetes Mellitus Tipo 2”, “Unidades de Terapia Intensiva”.
O que são palavras‑chave (termos livres)
- São palavras ou expressões que você escreve livremente para representar o seu tema, tipicamente presentes em título, resumo e texto dos artigos.
- Não pertencem a um vocabulário controlado (não são “oficiais” da base), por isso variam conforme idioma, grafia, estilo, gírias técnicas, siglas.
- Por que importa: capturam variações de linguagem, neologismos e termos emergentes que ainda não viraram descritores.
Exemplos:
- “lesão por pressão”, “pressure injury”, “escaras”, “bedsores”, “UTI”, “ICU”, “profilaxia”, “reposicionamento”.
Principais diferenças (e como elas afetam sua busca)
- Padrão vs. livre:
- Descritores = termos padronizados do vocabulário controlado da base.
- Palavras‑chave = termos livres no texto dos artigos.
- Cobertura:
- Descritores aumentam precisão e permitem “navegar” pela hierarquia temática.
- Palavras‑chave aumentam abrangência (recall), captando sinônimos, siglas e termos novos.
- Idioma:
- Descritores podem ter versões em vários idiomas (ex.: DeCS em pt/es/en), mapeadas para o mesmo conceito.
- Palavras‑chave exigem variações de idioma e grafia (inglês/português, US/UK).
- Dependência de indexação:
- Descritores dependem da indexação do artigo. Artigos muito recentes podem ainda não estar indexados por descritores.
- Palavras‑chave independem da indexação.
Conclusão prática: usar só descritores pode perder artigos novos; usar só palavras‑chave pode trazer muito “ruído”. A melhor estratégia combina ambos.
Onde encontrar os descritores corretos
- MeSH Browser (PubMed/Medline): https://www.ncbi.nlm.nih.gov/mesh/
- DeCS/MeSH BVS (pt/es/en) para LILACS/BVS: https://decs.bvsalud.org/
- Emtree (Embase): Entrar na base de dados Embase via Acesso CAFe pelo Portal de Periódicos da CAPES (acesso ao vocabulário dentro da plataforma). Assista a este vídeo para entender.
- CINAHL Headings (EBSCOhost): Entrar na base de dados CINAHL via Acesso CAFe pelo Portal de Periódicos da CAPES (acesso ao vocabulário dentro da plataforma). Assista a este vídeo para entender.
Dica: verifique a “scope note” (definição) do descritor para confirmar se corresponde ao seu conceito, veja termos relacionados, mais amplos e mais específicos, e avalie subheadings úteis (ex.: “prevention & control”, “adverse effects”, “therapy”).
Quando usar descritores e quando usar palavras‑chave
- Sempre use descritores quando:
- Eles existem para o seu tema,
- Você precisa de precisão e padronização,
- Deseja explorar subheadings (ex.: prevenção, epidemiologia).
- Use palavras‑chave quando:
- O tema é emergente e ainda não tem descritor,
- Você quer capturar sinônimos, variações linguísticas, siglas,
- Precisa trazer estudos muito recentes sem indexação completa.
- Melhor prática: combinar os dois conjuntos com OR dentro de cada conceito e AND entre conceitos (princípio PICO/PECO/PIO etc.).
Entenda o que são operadores booleanos (AND, OR, AND NOT) no vídeo abaixo.
Passo a passo para construir sua estratégia de busca
- Defina a pergunta (ex.: formato PICO ou PECO)
- P: população/paciente
- I: intervenção/exposição
- C: comparação (opcional)
- O: desfecho
- Liste sinônimos e variações por conceito
- Inclua singular/plural, US/UK, siglas, termos leigos/técnicos.
- Mapeie descritores em cada base
- MeSH/DeCS/Emtree/CINAHL Headings correspondentes.
- Combine descritores e palavras‑chave
- Dentro de cada conceito: (descritores OR sinônimos livres).
- Entre conceitos: conecte com AND.
- Aplique operadores e recursos
- Booleanos: AND, OR, NOT (use NOT com cautela).
- Frases exatas: coloque os descritos/palavras-chave “entre aspas”.
- Truncamento: para identificar variações de um radical, por exemplo – prevention* para prevention, preventive, etc. (o símbolo do truncamento varia por base, podendo ser * ou $).
- Campos: defina se quer a busca dos descritores/palavras-chave apenas em títulos, títulos e resumos, e etc. [MeSH Terms], [Title/Abstract], mh: (LILACS), ti,ab: (Embase/Scopus), etc.
- Ajuste por base de dados
- PubMed não usa os mesmos campos e operadores que Embase, Scopus, CINAHL, LILACS/BVS.
- Adapte sintaxe e campos em cada plataforma.
- Teste, refine e documente
- Rode a busca, avalie se os primeiros resultados são relevantes, ajuste sinônimos/descritores, salve a estratégia e registre a data/período de cobertura. Para projetos robustos, siga PRISMA‑S e valide com PRESS (Peer Review of Electronic Search Strategies).
Exemplo prático em saúde: lesão por pressão em idosos na UTI (prevenção)
Objetivo: encontrar estudos sobre prevenção de lesão/úlcera por pressão em idosos internados em UTI.
- Conceitos e sinônimos
- Condição: “lesão por pressão” | “úlcera por pressão” | “pressure injury” | “pressure ulcer” | “pressure sores” | “bedsores” | “pressure wounds”
- População: “idosos” | “older adults” | “elderly” | “aged”
- Contexto: “UTI” | “unidade de terapia intensiva” | “ICU” | “intensive care”
- Ação: “prevenção” | “profilaxia” | “prevention” | “prophylaxis” | “repositioning” | “skin care” | “mattresses”
- Descritores por base
- MeSH (PubMed): “Pressure Ulcer”; “Aged”; “Intensive Care Units”; subheading “prevention & control”.
- DeCS (BVS/LILACS): “Úlcera por Pressão”; “Idoso”; “Unidades de Terapia Intensiva”; qualificador “prevenção & controle”.
- Emtree (Embase): ‘pressure ulcer’, ‘aged’, ‘intensive care unit’, qualifiers/field labels específicos da base.
- Exemplo de estratégia (PubMed, ilustrativa)
- Conceito 1 (condição): (“Pressure Ulcer”[MeSH Terms] OR “pressure ulcer*”[Title/Abstract] OR “pressure injur*”[Title/Abstract] OR bedsore*[Title/Abstract] OR “pressure sore*”[Title/Abstract])
- Conceito 2 (população): (“Aged”[MeSH] OR elder*[Title/Abstract] OR “older adult*”[Title/Abstract] OR geriatric*[Title/Abstract])
- Conceito 3 (contexto): (“Intensive Care Units”[MeSH] OR ICU[Title/Abstract] OR “intensive care”[Title/Abstract] OR “critical care”[Title/Abstract])
- Conceito 4 (ação/prevenção): (“prevention and control”[Subheading] OR prevention[Title/Abstract] OR prophylaxis[Title/Abstract] OR reposition*[Title/Abstract] OR “support surface*”[Title/Abstract])
Combinação: (Conceito 1) AND (Conceito 2) AND (Conceito 3) AND (Conceito 4)
- Exemplo (BVS/LILACS, ilustrativa)
- (“Úlcera por Pressão”) AND (Idoso) AND (“Unidades de Terapia Intensiva”) AND (prevenção OR profilaxia OR reposicion* OR “Prevenção & controle”)
Observações:
- Ajuste maiúsculas/minúsculas, acentos e operadores conforme a interface;
Boas práticas (que fazem diferença no resultado)
- Combine descritores + termos livres para cada conceito.
- Verifique a “scope note” do descritor para evitar mapeamentos errados.
- Inclua variações linguísticas (pt/en), US/UK (behavior/behaviour).
- Use aspas para frases (“pressure ulcer”), especialmente em termos compostos.
- Truncamento com moderação (ex.: prevent* vs. prevention*), evitando “explodir” termos irrelevantes.
- Revise o mapeamento automático (PubMed ATM): confira em “Details”/“Search History” se a base traduziu seu termo para o descritor correto.
- Aplique filtros depois de testar a sensibilidade da busca (tipo de estudo, idiomas, anos). Evite filtros muito restritivos logo no início.
- Documente cada estratégia por base (para reprodutibilidade e métodos).
- Para revisões sistemáticas, siga PRISMA‑S e, se possível, peça uma revisão PRESS da estratégia.
Erros comuns (e como evitar)
- Usar só uma palavra‑chave e esquecer sinônimos e variações.
- Confiar apenas em descritores e perder artigos recém‑publicados.
- Ignorar o idioma dos artigos e buscar em uma única língua.
- Não checar se o termo escolhido realmente existe no vocabulário (e qual é o termo preferido).
- Usar NOT para excluir demais e acabar removendo estudos relevantes.
- Copiar a mesma sintaxe entre bases diferentes (PubMed ≠ Embase ≠ Scopus ≠ BVS).
- Não registrar a estratégia final (dificulta a escrita dos métodos e a reprodutibilidade).
Mini‑guia rápido: escolhendo descritores e palavras‑chave
- Comece pela pergunta PICO/PECO.
- Para cada elemento central, faça:
- 2–4 descritores (se existirem na base),
- 4–8 palavras‑chave (sinônimos, siglas, US/UK, pt/en).
- Combine:
- Dentro do conceito: OR,
- Entre conceitos: AND.
- Teste, refine, salve a estratégia e descreva nos métodos do seu trabalho.
Perguntas frequentes
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Descritores e palavras‑chave são a mesma coisa?
- Não. Descritores são termos padronizados dos vocabulários controlados; palavras‑chave são termos livres do texto dos artigos. Eles se complementam.
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Preciso traduzir para inglês?
- Quase sempre sim, especialmente para PubMed, Embase e Scopus. Use DeCS para ver o equivalente em inglês e espanhol a partir do português.
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Posso usar apenas descritores?
- Não é recomendado. Você pode perder artigos novos que ainda não foram indexados.
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Quantas palavras‑chave devo usar?
- Depende do tema, mas liste um conjunto robusto de sinônimos e variações. Em temas amplos, prefira estruturar por conceitos com 5–10 termos livres cada.
-
Como cito minha estratégia no método?
- Descreva bases, datas da busca, estratégia completa (com operadores e campos), filtros aplicados e data do último update. PRISMA‑S traz um checklist útil.
Conclusão
- Descritores aumentam a precisão por meio de termos controlados e hierarquias.
- Palavras‑chave aumentam a sensibilidade, captando variações de linguagem e novidades.
- A melhor estratégia combina os dois, corretamente estruturada com operadores (AND/OR), uso de frases, truncamentos prudentes, adaptação por base e boa documentação.